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Festival CoMA 2019: eu sou porque nós somos





Por Dani Ribas

 

Acabo de voltar de mais um festival: o CoMA – Conferência de Música e Arte, que aconteceu entre os dias 01 e 04 de Agosto de 2019 em Brasília. É a terceira edição do evento, e é lindo ver como ele cresceu em tamanho, importância e maturidade.

O formato deste ano foi: Conferência nos dias 1 e 2 (realizada no Complexo Cultural Brasil 21) e Festival nos dias 3 e 4 (que aconteceu no espaço que compreende o Gramadão da Funarte, Planetário e Clube do Choro).

Não vou fazer uma resenha dos 45 shows espalhados pelos 5 palcos nos dois dias do Festival. Para isso indico a resenha do Tenho Mais Discos Que Amigos!, que fez uma cobertura bem legal dos shows e showcases. Vou falar um pouco dos temas e tendências que surgiram nas discussões da Conferência, e também de algo que venho percebendo em todos os festivais a que tenho ido.

A programação da Conferência, que também contou com pitches de bandas e showcases, foi cuidadosamente selecionada para discutir temas emergentes. Destaques: “Simplificando o Direito Autoral”, com Guta Braga (numa época em que as legislações ainda estão tentando se adaptar às mudanças trazidas pelo digital); “Anelis Assumpção e Consuelo: carreira, criação e feitiçaria”, conduzido por Micaela Neiva (CoMA), numa abordagem não convencional sobre a participação feminina na música; “Conteúdo na Era da Pós-Curtida”, com Ekena, Carol Navarro (Supercombo) e Mariana Stabile (Sharp), sacada muito legal da curadoria da convenção para discutir as implicações da recentíssima mudança no Instagram em que o número de likes deixou de ser visível para todos; “Bate-papo com a banda Tuyo”, por Tony Aiex (TMDQA!), cuja excelente abordagem extraiu, em clima leve, inteligente e bem humorado, pontos importantes para se pensar na relevância artística num momento em que todos disputam a atenção do público. Como analista, tive muitos insights vendo essas mesas.

Também dei minha contribuição à Conferência, mas desta vez não falando de uma pesquisa específica do DATA SIM. Na mesa “Analytics: dados para construir um futuro na música”, ao lado de Karla Megda (Sympla) e Luisa Martins (T4F), falei do momento atual em que vivemos. Por um lado temos excesso de dados numa sociedade cada vez mais dominada pelo Big Data, e por outro, parece que não temos os dados de que precisamos para construir uma estratégia no mercado musical. E todos parecem estar loucos por dados que magicamente “resolvam” as estratégias de artistas em ambiente digital. Entre a onipotência do Big Data e essa espécie de fetiche por dados, mais importante que os números em si é como olhamos para eles. Fazendo uma reflexão sobre cidades musicais a partir de um estudo da Chartmetric, demonstrei que a interpretação sobre os dados é o que nos leva a insights profissionais, e não os dados em si. E que, para a análise de dados, as ciências humanas e as pesquisas qualitativas são tão ou mais importantes que as métricas econômicas.

Além dos destaques acima, quero comentar um ponto discutido em duas mesas e que tenho percebido nos diversos festivais a que tenho ido. A abertura da Conferência “Além da Música: a Era das Experiências invade os Festivais (com Franklin Costa e Carol Soares)” e a mesa “It’s not a Festival: uma história sobre o Burning Man” (com Daniel Strickland) tocaram na capacidade dos festivais proporcionarem experiências, mais do que oferta musical. As duas mesas tocaram em pontos importantes do marketing de eventos. Mas para mim, como analista, isso não é o suficiente para explicar o tipo de experiência que os festivais proporcionam ou a multiplicação dos festivais no mundo todo. 

​Um festival é, por excelência, um momento em que se ofertam atrações musicais num clima de festa e confraternização. Mas isso não é ainda o suficiente para explicar o que acontece naquela experiência concentrada e extraordinária. Um festival é o momento em que curadores apresentam o novo, onde propostas musicais emergentes começam seu ciclo de consagração para além dos pequenos palcos e clubes noturnos. É um momento especial da comunicação com o público. Ali a surpresa da novidade é vivida de maneira compartilhada. É uma experiência que se vive junto e se transforma em memória – e sabemos que a memória musical é um elemento importante da nossa vida. Quem nunca se lembrou de algo recôndito na memória a partir de uma canção? “Sonho que se sonha junto é realidade”. São momentos que se não podem ser revividos podem ser rememorados - e a música é o fio condutor dessa memória. A música experimentada nos festivais dá densidade, intensidade, volume, gosto e cheiro à memória.

No post anterior sobre o Festival Marte em Ouro Preto falei que festivais são eventos onde a música ocorre de maneira coletiva e compartilhada, fazendo com que novos significados (formulados coletivamente a partir das expressões artísticas individuais) passem a fazer parte da cultura que compartilhamos com nossos contemporâneos. Essa frase longa, típica de uma socióloga, poderia ser resumida por um artista sem perder a complexidade ou densidade: “eu sou porque nós somos”. Ouvi essa frase no show da Tuyo no CoMA, não sei se da boca de Lio ou Lay. Não importa. Momentos são mais especiais quando compartilhados, pois podem ser rememorados por várias mentes e almas ao mesmo tempo. Essa é a força de um festival. É isso o que faz a relevância das bandas em tempos de disputa por atenção.

Tuyo participou da Conferência e dos shows – e depois do show ainda deu “canja” no espaço karaokê numa demonstração sincera de como compreende a necessidade de seu público, cada vez maior. No bate-papo que fechou a Conferência, Tony Aiex conseguiu extrair da banda uma frase que, para mim, faz todo o sentido quando interpreto as dinâmicas culturais contemporâneas: “nós compartilhamos nossas vulnerabilidades”. As músicas da jovem banda nos fazem lembrar de nossas suscetibilidades e fragilidades num mundo marcado pela curtida (ou pós-curtida) das vitórias aparentes. A consciência das fragilidades é importante para lembrarmos que precisamos uns dos outros, especialmente em momentos difíceis como os que estamos vivendo no Brasil, e que podemos nos fortalecer internamente quando jantamos juntos, quando compartilhamos momentos e quando vamos a Festivais. Daí também o sucesso de “Bolso Nada”, “Triste, Louca ou Má”, e outras da Francisco, El Hombre (que também fez show memorável descendo do palco e convocando a geral pra cantar os versos de “Bolso Nada”). A mensagem é clara: juntos somos mais fortes.

Num espaço assim, feito para compartilhar fragilidades e fortalezas construídas coletivamente, não poderia deixar de haver uma preocupação genuína com o acolhimento ao diferente. O CoMA Consciente, que contou com grupo de trabalho específico na organização do evento, prezou pela acessibilidade. Havia rampas, espaços elevados para que cadeirantes pudessem ver os shows, áudio-descrição em libras de alguns dos shows. Não é só marketing. É a consciência de que juntos, e apresentando soluções às nossas vulnerabilidades, somos mais fortes. É preocupação com pessoas, pois afinal são elas que importam. Festivais são feitos de pessoas, para que elas convivam e elaborem novos sentidos para a vida coletiva. 

É muito bom ver que os festivais, apesar de todas as dificuldades impostas pelo sufocamento do financiamento à cultura, continuam crescendo e se reinventando. É lindo ver o aumento do público do CoMA para 25 mil pessoas. Esse crescimento não é apenas porque o marketing do Festival está melhor. Ele é a prova de que pessoas precisam se encontrar, viver juntas, elaborar seus sentidos comunitários, especialmente em tempos em que as liberdades interiores (de gênero, sexuais, comportamentais, ideológicas, etc.) estão sendo estigmatizadas e criminalizadas

Mas qual o sentido de não sermos convencionais e darmos vazão às nossas liberdades internas em espaços como festivais? Mais do que simples expressão de uma personalidade inquieta, o sentido é fazer com que todos, convencionais ou não, possam lançar mão de sua liberdade interior para poder fazer o que a alma pede. Quando querem silenciar uma alma inquieta ou seus desejos não convencionais, na verdade querem aniquilar a possibilidade de todos desfrutarmos da liberdade. Festivas são momentos de exercício de liberdade numa sociedade autoritária contra os não-convencionais. A vida é a arte do encontro, e os festivais fazem essa mágica acontecer.

 

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