Carlos Eduardo Miranda: muito mais que um ídolo.

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Por Marcelo Costa

“Se não existisse o Miranda, talvez a história do rock brasileiro a partir dos anos 90 fosse completamente outra”, escreveu Samuel Rosa (Skank) no Instagram. “Perdemos nosso Guru da música e arte, um homem sem fronteiras, explorador do estranho, esquisito e legal”, disseram os Raimundos, no Facebook. “Talvez você não saiba, mas, nos últimos 25 anos, sua vida tem sido influenciada pelo Miranda”, pontuou o músico Giancarlo Rufatto, no Twitter, no dia em que as redes sociais se uniram para saudar a sabedoria de Carlos Eduardo Miranda, falecido na quinta-feira, 25, aos 56 anos.

Miranda era tudo isso… e muito mais. Em sua coluna de estreia, na saudosa revista General, de dezembro de 1993, após anos escrevendo na revista Bizz, ele batia no peito e escancarava em tom de bravata: “Como inventei o rock gaúcho”. Ironicamente, naquele mesmo momento ele estava “inventando” o rock nacional dos anos 90. Enquanto toda a indústria fonográfica da época estendia um tapete vermelho para a música sertaneja e arremessava pás de cal sobre o rock, Miranda estava cercado de fitas K7 arquitetando a revolução que lançaria, através do selo Banguela Records (em parceria com os Titãs), nomes como Raimundos, Mundo Livre S/A, Little Quail and Mad Birds, Graforréia Xilarmônica e Maskavo Roots. Era só o primeiro passo.

“O contrato dos Raimundos foi assinado numa roda de chopp, num barzinho em Ipanema”, relembrou ele em outra coluna da revista General. “O Little Quail, um dia depois do Mundo Livre S/A, também assinou na praia e em mesa de bar. Dessa vez no Leblon. Mais um dia e eu comemorava a assinatura do Graforréia Xilarmônica com uma cervejada no Timbuca, na Assunção, em Porto Alegre. Na beira do rio Guaíba, arquibancada para o mais tradicional pôr-do-sol sulista e brodagens gerais”, completava Miranda para, no parágrafo seguinte, cantar a bola do verão 94/95: “Por sinal, o Maskavo Roots vai se dar bem nesse verão. Eles, o Skank… É reggae na cabeça”. E não é que o Velhinho estava certo?

Ele não parou. Muito pelo contrário. Depois de virar os anos 90 do avesso, Miranda adentrou o novo século arquitetando outro belo movimento de xadrez no tabuleiro da música brasileira. E quando a Internet começou a se tornar realidade em um Brasil ainda navegando em conexões discadas, lá estava ele à frente da Trama Virtual, uma plataforma gratuita focada em música independente que criou um espaço para novas bandas mostrarem seu trabalho. De Teatro Mágico a Móveis Coloniais De Acaju, de Hateen a Vanguart, de Jupiter Maçã a Fresno (que ocupou por muito tempo as paradas da plataforma), de Nuno Prata (Portugal) a Cansei de Ser Sexy, que foi a primeira banda a lançar um disco pelo selo, para depois se transformar em um sucesso mundial.

Se um é pouco e dois é bom, três “é só alegria”. No mesmo momento em que começava a se tornar um nome reconhecido nacionalmente através de programas de TV, Miranda também iniciava um relacionamento amoroso pela música paraense que renderia muitos frutos: ele dirigiu as três edições do Terruá Pará, projeto grandioso envolvendo dezenas de músicos da região que aconteceu nos anos de 2006, 2011 e 2013, sendo que, nesse último ano, o show foi eleito como o melhor projeto especial na categoria Música Popular, pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Depois trabalhou nos discos de Gaby Amarantos, Jaloo e Sammliz. Já à frente do selo StereoMono, também lançou Mahmundi e Boogarins. Miranda não era apaixonado por um estilo de música, mas sim pela música como um todo, por qualquer boa música.

Mas muito mais que músico, jornalista, crítico, produtor, curador, agitador, dono de selos (além do Banguela Records, Miranda montou a Excelente Discos, que lançou o Virguloides – do hit “Bagulho no Bumba” – e também o Acabou La Tequila, influência assumida de outro grupo que faria sucesso nos anos 2000: Los Hermanos) e jurado de programa de TV, Miranda foi um dos maiores articuladores e influenciadores que a música brasileira já teve. Por trás das câmeras, era um pesquisador incansável de novos sons e acompanhava atentamente a carreira dos jovens artistas que admirava. Fonte inesgotável de boas ideias, se tornou uma espécie de guia e referência para quem criava ou produzia no mundo musical. Tem um projeto novo? Pergunta pro Miranda o que ele acha. Escreveu uma música nova? Manda pro Miranda dar uma escutada. E ele sempre tinha a resposta certa pra dar, como um bom amigo.

Se não fosse ele, a música brasileira não teria alcançado muitos dos níveis de criatividade que alcançou nos últimos 30 anos. Miranda ajudou a mudar o mercado muitas vezes, injetando sabedoria, humanidade e bom humor. “Eu acho que não conheço outra pessoa que mudou tantas vidas como ele”, comentou Adriano Cintra, ex-Cansei de Ser Sexy, em seu Facebook. “A minha com certeza ele mudou”, completou. A sua também, caro leitor, pode acreditar.

(Aqui a dica que ele deixou registrada em 2015 pra SIM SÃO PAULO.)





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