News

Consolidação do streaming traz ânimo a profissionais e aponta bom momento do mercado no Brasil





Na primeira edição da Revista da SIM São Paulo, em 2017, fizemos um panorama do mercado da música no Brasil. Com depoimentos de profissionais atuantes em diversos ramos da indústria, a matéria traz dados e reflexões sobre distribuição digital, licenciamento e sincronização e a força dos festivais. Relembre.

Cinco anos atrás, quando a SIM São Paulo debutava, o mercado fonográfico brasileiro adentrava, pela segunda vez consecutiva neste século, o Top 10 do ranking de países em faturamento. Segundo a IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica), o Brasil havia sido o 8º maior mercado em 2012 e o 9º em 2013. Atualmente, o país está na 11ª posição, e nem essa queda, atribuída à instabilidade econômica dos últimos dois anos, tira a certeza de que o mercado brasileiro está no caminho certo, após um longo período de incertezas. “(Na virada da década) o clima era de depressão. Ninguém sabia o que ia acontecer”, relembra Mauricio Bussab, fundador da distribuidora Tratore. “Agora não. A nossa indústria hoje funciona, é sustentável e paga as contas”, afirma. “Esses últimos cinco anos foram cruciais. Basicamente, cinco anos atrás não se ganhava dinheiro com música digital e agora se ganha”, resume.

A fala de Bussab bate com a estreia de dois grandes players digitais no mercado brasileiro. “Chegamos ao Brasil em 2013, identificando uma oportunidade”, observa Bruno Vieira, Country Manager da Deezer no país. “Hoje, o Brasil está no Top 5 marcas da Deezer, e enxergamos um potencial muito grande de crescimento”, revela, mostrando ânimo para o futuro. “Vejo o mercado muito melhor daqui a cinco anos do que eu enxergava há cinco anos”. Já o Spotify chegou ao Brasil em 2014. De lá para cá, Roberta Pate, gerente de relacionamento com artistas e gravadoras no Brasil, destaca o interesse crescente da classe artística (ainda maior em 2017) em entender como trabalhar melhor o digital e o amadurecimento de gravadoras, editoras e distribuidoras: “Venho sentindo uma mudança de mindset muito grande na indústria”, conta. “Ela passou por uma grande revolução e se adaptou, mas o consumidor se mexe muito mais rápido. Para a gente é muito importante manter o passo deles e, se possível, se antecipar”, acredita.

 

LICENCIAMENTO E SINCRONIZAÇÃO

O bom momento do streaming reverbera em outras áreas. “O catálogo da Tratore multiplicou por sete em cinco anos”, revela Bussab. Já Arthur Fitzgibbon, diretor da agregadora ONErpm para América Latina, compara: “Se em 2012 fazíamos uma média de 30 lançamentos por dia, hoje nosso sistema já consegue fazer mais de 500 lançamentos diários. E não há sinais de desaceleração”. Arthur acredita que a tendência é o mercado ficar cada vez mais forte. “O segredo para os artistas estará na construção e negociação da sua própria audiência”, opina. Mauricio Tagliari, diretor da YB Music, bate num ponto que Bruno Vieira, da Deezer, reforça: o mercado ainda precisa ser educado. “As pessoas que estão inseridas na indústria acham que sabem o que é digital, mas não sabem”, diz Bruno. Para desenvolver o segmento gospel no portal, a Deezer “educou” parceiros, promovendo workshops, vídeos, treinamentos e eventos com artistas, empresários e gravadoras. “Agora estamos colhendo frutos”, avisa. Tagliari, que fala do mercado de sincronização e licenciamento, diz que precisamos “educar todo mundo: diretor de filmes, produtores, o povo de agência, o cliente e o artista”. Segundo ele, muito artista cai no conto da “visibilidade” e cede de graça uma música para um filme. “Tem verba para todo mundo, do gaffer ao diretor, passando pela maquiadora. Por que não para música?”, questiona. No balanço de 2016 da IFPI, a sincronização totalizou 1% do faturamento do mercado fonográfico brasileiro (2% no mercado mundial), e Tagliari acredita que há muito ainda a crescer, mas pondera: “Nos EUA, este mercado é muito consolidado. Tem para toda faixa de preço e tamanho de artista. Aqui ainda é meio luxo”.

Luiz Augusto Buff, sóciofundador da 1M1 Arte, reforça a opinião de Tagliari: “Estamos alguns anos atrás de alguns mercados internacionais que levam a sério a questão de licenciamento, que é saber que existem vários níveis de artistas e produções, com diferentes valores a serem praticados”. Segundo Buff, houve uma mudança de paradigma da indústria: “Antigamente, se fazia qualquer coisa para vender disco. Hoje se faz disco para vender qualquer coisa”. Ou seja, antes se licenciava música para novela, filme ou propaganda visando alavancar o produto fonográfico. “Hoje não.

A sincronização é um produto em si. É uma oportunidade dentro do mercado de música”. Para ele, a profissionalização é cada vez mais importante. “Estamos num período de transformação do audiovisual com Netflix, Youtube, realidade virtual e games, que são oportunidades desse mercado crescer ainda mais”. Em 2017, a ANCINE abriu pela primeira vez um edital, em que considera games um produto audiovisual. “Isso faz com que, indiretamente, o áudio e a música participem desse incentivo”, pondera Buff.

 

E OS FESTIVAIS?

Outra área que passou por transformações foi o mercado de música ao vivo, que viu festivais como Rock in Rio e Lollapalooza se consolidarem enquanto os independentes enfrentam desafios. “Com a desarticulação do setor cultural junto aos entes públicos, os festivais mais novos e com menos lastros se enfraqueceram um pouco”, observa Fabrício Nobre, diretor do festival Bananada, que acontece desde 1999 em Goiânia. “Mas quem tinha uma conexão mais firme com as cenas e empreendimentos culturais de sua cidade se segurou, e mesmo num momento de crise tem apresentado boas edições”, opina Nobre, citando como exemplo os festivais Coquetel Molotov (Recife), DoSol (Natal), Satélite 061 (Brasília), Se Rasgum (Belém) e El Mapa de Todos (Porto Alegre). Do outro lado, o Rock in Rio mudou em 2017 para uma área maior e festejou mais um sucesso. “O festival se transformou em um grande parque temático da música onde o entretenimento ganhou escalas e dimensões de um verdadeiro parque de diversão”, resume Luis Justo, CEO da marca.

Empresa responsável pelo Lollapalooza Brasil desde 2014, quando ocupou a vaga deixada pela GEO, a T4F ampliará o festival para três dias em 2018: “Mais da metade da nossa capacidade de passaportes para os três dias já foi vendida”, garante Alexandre Wesley, Diretor de Entretenimento da T4F, que credita o sucesso do evento à maturidade do festival, que chegará à sétima edição. “Voltar aos três dias tem mais a ver com a evolução do festival do que em confiança no mercado”. Ainda assim, Alexandre relembra que 2012 e 2013 foram anos bastante difíceis para o setor, e que a tendência de 2017 era a de seguir o mesmo caminho dramático, devido à crise econômica, mas o resultado foi positivo: “O volume de shows deste ano é um volume de mercado aquecido. Foi um ano muito bom”, comemora. “Se olharmos para 2018, não dá para não ter esperanças de que isso só vá se potencializar”, acredita.

“O mercado de música nunca esteve tão forte e crescendo”, opina Sandra Jimenez, Head of ​Music LATAM de YouTube & Google Play Music, que destaca firmemente a força do mercado latino-americano neste momento de retomada de poder pelo mercado fonográfico. “O Brasil e toda América Latina têm sido o epicentro da música consumida no mundo”, conta. “Se você olhar o nosso ranking de mais executados da semana, verá que vários artistas latino-americanos estão no Top 10, e o número 1 de vídeo viral é a nova música de Anitta & Allesso, ‘Is That For Me’! Tudo isso é fenomenal”, festeja.

Embalado pelos números crescentes do mercado da música em todo o mundo, o futuro do mercado no Brasil é animador, e o clima geral é de otimismo. Em 2016, a América Latina foi o mercado regional que mais cresceu no mundo pelo sétimo ano consecutivo, segundo a IFPI. E, nessa toada, o primeiro semestre de 2017 já foi bastante positivo para a Warner Music Brasil, como contou Sérgio Affonso Fernandes, presidente da companhia, ao site britânico Music Ally, num balanço sobre as expectativas do mercado brasileiro. “Esperamos que a segunda metade do ano também seja forte para nós”, disse Fernandes, que acredita que a infraestrutura digital está melhorando o tempo todo, o que abre oportunidades para que o negócio possa ser expandido. “Acredito que a indústria brasileira, como um todo, verá as receitas aumentarem em 2017”, projeta o presidente da Warner.

A boa fase só está começando.

  • contato
PRODUÇÃO / PRODUCTION
INFO@SIMSAOPAULO.COM
ASSESSORIA DE IMPRENSA/PR
PRESS@SIMSAOPAULO.COM