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Por que você deveria colocar sua música num filme e como pode ganhar com isso?





Muitas vezes uma boa trilha faz um filme. Mas qual a função do audiovisual para a música? A primeira, e talvez mais óbvia, é potencializar a divulgação da mesma em larga escala. Uma outra, que depende do casamento entre som e imagem, é a possibilidade de entregar a composição da maneira mais “correta” para o público, indicando o caminho da criação. Somado a isso, num contexto em que cresce gradativamente o consumo de vídeos na internet e nas redes sociais e no qual o contato com o audiovisual está cada vez mais acessível, essa dobradinha dá sinais de alternativas de monetização.

E como fazer isso? “É preciso colaborar ao invés de competir”, diz Minom Pinho, sócia da Casa Redonda. Produtora executiva de “Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil” (Marco Del Fiol), Minom falou na SIM São Paulo sobre a função da música no audiovisual ao lado de David Schurmann (Schurmann Filmes), Luiz Augusto Buff (1M1 Arte) e Walkiria Barbosa (Total Entertainment). E empresta a frase de André Martinez, pesquisador especializado em economia criativa, para sugerir – e colocar em prática – novos modelos de negócio na sua empresa. “Há especificidades setoriais que precisam ser mantidas até para o fortalecimento da cadeia. Mas, dentro desse setor, essas redes tem de ser permeáveis. Como elas podem se alavancar umas às outras é que precisamos investigar”, analisa. Confira a entrevista.

Alavancando sua música no streaming: o papel das playlists

SIM- Por que você deveria colocar sua música num filme?
O homem é movido por narrativas. Nosso imaginário é construído assim. Então, a música é em si própria um story telling. Mesmo quando não há uma única palavra. Quando você pensa no potencial de difusão do audiovisual em larga escala associado a uma narrativa – ou seja, uma narrativa dentro de outra narrativa – isso tem um poder imenso. E tem a questão da dimensão da tela cinematográfica também. Você pode colocar sua música num meio de imersão. Quando esse casamento é perfeito, você chega nisso que é compreendido como o estado da arte. Você tem uma imagem, está tomado por uma história, sendo levado por um estado imersivo, quase em outra realidade. É muito bom do ponto de vista artístico e da fruição da música. Traz muitas potências de fazer essa música que você criou de chegar em muito mais pessoas e da maneira “correta”.

SIM – E do ponto de vista mecardológico?
Embora a música seja um mercado imenso, o audiovisual é um mercado que está crescendo muito. Então, esse diálogo se apresenta em muitos formatos. Claro, passa pela composição de trilhas para filmes ou vídeos para branded content e publicidade, ou ligados ao cinema ou a televisão. Mas há ainda um mercado imenso e que vai beneficiando desde o cara que cria até todo o mercado de estúdio, passando pelas mixagens, os tratamentos, os técnicos… Esse mercado pode dialogar em paridade numa cadeia criativa e produtiva. E há um milhão de possibilidades.

SIM – Conta mais.
Com a regionalização do audiovisual, essas potencialidades se intensificam. A Ancine está despejando um monte de dinheiro regionalmente, para alavancar o audiovisual. Hoje, em Brasília, acho que mais de R$ 20 milhões são dedicados ao desenvolvimento do audiovisual. O que isso representa para a cena musical de Brasília, que é um polo musical também? Recife, idem. É só olhar os arranjos regionais da Ancine para ver o quanto de dinheiro está indo pra lá. O que estou querendo dizer é: músicos, comecem a estudar as politicas audiovisuais para entenderem potenciais que vocês não estão enxergando nas interações e intersecções dessas duas cadeias produtivas.

SIM – E como acessar esse mercado?
Procurar todas as produtoras é uma maneira pouco potente de você estabelecer diálogo. A gente está num mundo de muitas possibilidades. Então, você não pode ficar solto. Uma dica é mapear as produtoras que fazem filmes com os quais você se identifica. É o que chamo de convergência de sentidos. Se você curtiu o filme da Marina Abramovic há muito mais chances de trabalhar melhor comigo do que alguém que achou aquilo uma bobagem. Hoje, é preciso ser criativo não apenas na forma de criar a música, mas na forma de como ela interage com outros universos e circula. Buscar os lugares e as pessoas que fazem coisas que dialoguem com o que você faz, o que eu chamo de empreendedorismo de sentido. Tem um livro muito bacana do músico Benjamim Taubkin, “Viver de Música”. Ele entrevista vários artistas e apresenta as formas que eles encontraram para trabalhar com isso sem se render apenas ao mercado. Gente que faz batida de tambor do candomblé e ao mesmo tempo dá aula numa escola, por exemplo. Recomendo.

SIM – E é verdade essa história que a escolha da trilha fica pro final?
O produtor do audiovisual tem muitas coisas a pensar. É super complexo. Quando se fala em produção audiovisual está se falando de uma indústria mesmo que, mesmo feita artesanalmente, é muito cara. Cada diária a mais é uma fortuna. A música é dos itens da produção e é fator fundamental. Tem de entrar no planejamento desde o nascedouro de um projeto e, muitas vezes, isso não é feito. É preciso estabelecer essas pautas até por questões orçamentárias. Para não chegar na hora de fazer a trilha e falar “ih acabou o dinheiro do meu filme e só tenho tanto. você não quer fazer de graça?”, o que é sempre super chato. É preciso se planejar, ter dinheiro destacado para uma trilha original ou para um licenciamento. E isso tem que ser pensado artisticamente, orçamentariamente e mercadologicamente. Quando essas três coisas casam, temos a situação ideal.

SIM – Como, enquanto músico, trabalhar com esse cenário?
Este é um mercado difícil para entrar. Então, precisa avaliar quais são os preços que a você quer pagar para cercá-lo. Eu, por exemplo, sabia muito do valor do meu trabalho. Mas para consolidar a minha trajetória aqui em São Paulo, eu me planejei para que durante um ano eu trabalhasse com o que fosse fundamental para mim, para fazer uma marca. E aí eu não olhava muito para o dinheiro. Não é que eu não cobrava. Mas não era uma prioridade. Às vezes eu pegava umas produções que não tinham dinheiro, mas sabia que iriam muito bem e alavancariam o meu nome. Foi uma estratégia. Não é que eu sugiro que façam assim, mas é uma caminho. E, muitas vezes, as pessoas querem ignorar essa possibilidade porque acham que serão exploradas. Só que ela precisa de nome num mercado que precisa de nome. E como você constroi o nome? Fazendo trabalhos que mostrem que você é capaz. Eu fiz isso. No documentário da Marina, por exemplo, eu nao fiquei olhando para o quanto eu ia ganhar pra fazer a cada etapa. Eu tinha uma oportunidade incrível e queria mostrar para o mercado que eu era uma super, excelente profissional, produtora de documentários. Não ia fazer conta pequena. Trabalhei horas na divulgação sem ganhar um real, saca? Também investi para circular em festivais internacionais que eu queria entrar, para entender como poderia entrar. Foi a chance de criar um portifólio matador para a minha produtora. com um nome que me colocou no panorama. Agora eu começo a escolher com quais documentaristas eu gostaria de trabalhar. Então, às vezes, na entrada você precisa fazer coisas assim.

SIM – Ainda é mais fácil colocar uma música gringa num filme do que uma brasileira?
Depende da música. A questão é que fora as regras são mais claras. Às vezes, na musica brasileira, você vai para uma abstração. “Ah esse filme é caro, então só cedo minha música se você pagar sei la quanto mil reais. E isso pode atravancar o filme. E é difícil colocar preço na criação. É um valor intangível. É super difícil. E muitas pessoas não entendem os meandros do cinema. Precisa explicar regulatório da Ancine, quanto custa a diária de filmagem, quanto custa a trilha… A gente cai nuns sistemas muito abstratos. Quando tem regras mais claras, não pensa num artista isolado, mas na cena musical inteira. Consegue tocar tudo de forma mais profissional e mais realista.

SIM – E há outras formas de monetizar essa parceria?
Estou pesquisando sobre isso. Até porque documentário não tem dinheiro mesmo. O orçamento é menor. Temos de pensar em uma forma atrativa de reunir grandes talentos. Às vezes o cara quer fazer um disco autoral e você quer aquele cara pq tem aquele tipo de música para a abordagem do seu filme. Você pode falar para ele “vamos pensar num jeito que você utilize essa trilha depois porque eu quero sua autoralidade e não uma encomenda”. Dá para alavancar um álbum nesse formato… ou, sei lá, criar um tipo de batida que depois será disponibilizada em bancos que podem ser utilizados pela publicidade. Pensar como usar o recurso do filme quando faz uma trilha original gerando novos proventos.

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