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DATA SIM PROVA QUE NÚMEROS DA CULTURA SERÃO ARMA DE RESISTÊNCIA





Durante a tarde de quinta-feira (6/12), o DATA SIM apresentou alguns resultados e números durante a Semana Internacional de Música de São Paulo, fazendo um panorama de quanto os festivais pelo Brasil (incluindo a própria SIM) são importantes para o desenvolvimento econômico e cultura do nosso país. Foram três mesas: “Como 33 milhões de brasileiros consomem música? por JLeiva Cultura & Esporte”, “O mapa dos festivais do Brasil, por Sympla”, e “Impacto sócio-econômico da SIM São Paulo e de festivais de música e economia criativa numa cidade”.

Consumo de música

Ricardo Meirelles (JLeiva Cultura & Esporte/SP) apresentou os números da pesquisa “JLeiva Cultura nas Capitais”, que analisou os hábitos culturais de mais de 10 mil moradores de 12 capitais brasileira, a maior já feita no Brasil.

Entre os números apresentados estavam que, 46% dos respondentes têm shows como principal atividade cultural, contra 68% tendo livros e 64% o cinema. Desses, 24% têm nível superior e 47% ensino médio. Sendo que, dentro da classe A, 72% foi a shows.

“Show é uma atividade com valor bem diverso. Uma roda de choro na praça tá valendo como show, um DJ na esquina de casa, uma apresentação num bar a pessoa pode considerar um show”, afirmou Meirelles. “Apesar de ser uma atividade com valores bem diversos, existe um salto entre classes.”

No que diz respeito a shows, os homens são maioria em frequência, com 50%, enquanto mulheres representam 42%. “Existe um gap entre acesso e interesse. Mulheres têm mais interesse em ir à shows do que homens, mas não vão. Infelizmente são as mulheres que cuidar das crianças, o fator maternidade pode explicar esse motivo do interesse ser grande a frequência ser pequena”, explicou Ricardo Meirelles.

A jornalista Bia Abramo, que participou da mesa, levantou a questão do machismo também para justificar o dado apresentado pela JLeiva e DATA SIM. “[Isso] tem a ver com o controle que se exerce sobre o corpo da mulher desde que nasceu. O corpo da mulher no forró quer sexo, no show punk elas eram esmagadas. Se você não se esconde de preto, leva pancada”, rebateu a jornalista, sendo bastante aplaudida. “Se você vai num show enorme no estádio, você não vê nada, não ouve nada. Uma mulher da minha idade, eu tenho 55 anos, você ir sozinha a um show desses, pode acontecer tudo com você.”

“Existe uma questão social sobre o corpo da mulher, sobre a mulher mãe que vai deixar o filho com alguém pra ir pra ‘gandaia’. No Brasil, a gente tem essa questão maior em regiões mais afastadas dos grandes centros. O ambiente também conta. Aqui em São Paulo, por exemplo, existe a Casa Natura Musical, que é um lugar muito amistoso, em que a mulher pode chegar sozinha. Por outro lado existem inúmeros lugares fora dos grandes centros em que isso não existe”, completou Verônica Pessoa (Pessoa Produtora, Janela Aceleradora/SP).

Mapa dos festivais

A Sympla mostrou alguns dados baseados nos principais festivais brasileiros em uma mesa mediada por Pena Schmidt, com a presença de Karla Megda (Sympla), Gustavo Sá (Festival Porão do Rock/DF), Jomardo Jomas (Festival MADA/RN), Fabrício Nobre (Festival Bananada/ GO), Jarmeson de Lima (Festival Coquetel Molotov/PE),e  Ana Morena Tavares (Festival DoSol / RN).

A pesquisa conseguiu identificar que, atualmente no Brasil, temos 1.900 festivais de música, que correspondem, segundo a Sympla, a metade dos eventos realizados no Brasil. Durante a discussão, foi unânime a importância dessa coleta de dados para melhorar em todos os sentidos - desde estrutura até paridade de gênero -, dos festivais.

“Quanto festival, a gente tem uma importância muito maior do que só vender ingresso. Aprendemos ao longo dos anos a ser um festival inclusivo”, disse Jarmeson de Lima (Festival Coquetel Molotov/PE. “A gente pode, pouco a pouco, fazer a sociedade melhor através da música. Nos próximos anos, apesar de difíceis, a gente tem que ter algo melhor pra mostrar e entrar com a gente nessa luta."

Ana Morena Tavares (Festival DoSol / RN) seguiu na mesma linha de Jarmeson, principalmente no que diz respeito aos avanços sociais. “O DoSol completou 15 anos, ele tem várias outras ações que são englobadas pelo DoSol, a gente encara ele como ideologia de vida. O que a gente que com nossos artista, com nosso público? Então a gente transporta isso pro festival”, explicou. “A questão da diversidade de gênero existe porque, quanto mais diverso forem nossos festivais, mais a gente transporta isso pra nossa sociedade.”

Durante a mesa, Pena Schmidt ainda reforçou a importância dos festivais como principal vitrine para artistas, sejam eles iniciantes ou consagrados. Pra ter uma carreira bem-sucedida, é praticamente obrigatório estar presentes nesses eventos e nas casas de shows.

Festivais de música e economia

Dani Ribas (Sonar Cultura, DATA SIM/SP), Fabiana Batistela (diretora da SIM São Paulo, DATA SIM/SP) e Luciano Balen (Festival de Música de Rua) apresentaram e comentaram os números do impacto sócio-econômico da SIM São Paulo, pesquisa feita pela primeira vez.

Os dados estarão todos disponíveis no site datasim.info, mas muitos deles já foram apresentados na tarde de quinta, como: 55% das pessoas que frequentam a SIM são de fora de São Paulo e costuma se hospedar na casa de amigos e parentes. A maioria, 33% dos respondentes, chegam a gastar até R$ 300,00 durante o evento.

Dos profissionais que frequentam a SIM, 30% são autônomos e 54% empreendedores. “Daqui dá pra gente entender que o mercado cultural tem um elevado número de empreendedores, isso para o que a gente chama de pesquisa de desenvolvimento e inovação. É super importante porque a economia criativa e do conhecimento, que é a fase atual do capitalismo que a gente vive, ela não se sustenta se não houver empreendedorismo e inovação, e área cultural tá cheia de empreendedores e inovação”, explicou Dani Ribas. “Era uma área que deveria estar na crista da onda. Temos que mostrar essa importância,  ela é a mais importante de todas, mas se a gente não consegue convencer as pessoas por esse lado [da cultura, modificação social], vamos mostrar pelo lado econômico.”

O alcance geográfico dos profissionais também foi analisado, mostrando que 44% das empresas têm alcance nacional e 29% alcance mundial. A maioria dessas pessoas (36%) fazem de 5 a 10 viagens por ano por causa do trabalho, sendo que 29% desses viajam pro exterior. “Festivais de música independente e pequenas casas de show são os locais onde mais se consome música ao vivo. O artista que quer ser visto precisa estar nesses lugares”, avisou Dani, citando a fala de Pena Schmidt. “Ano passado criou-se um grupo de festivais na SIM, porque a gente percebeu que tinha muitos festivais aqui, e criamos um grupo para se comunicar. Eram 60 festivais ano passado, aí esse grupo foi evoluindo e no Porto Musical ele se ampliou. Hoje já tem quase 200 festivais. Nem todos estão aqui, mas a maioria está, e quem não está na SIM está recebendo a informação de quem está. Então esse resultado amplia para além do evento”, completou Fabiana Batistela.

Insistência artística

Luciano Balen mostrou o case "Caxias do Sul", revelando tudo que vem acontecendo na cidade da Serra Gaúcha. Segundo ele, "a cidade vive uma monarquia instaurada em 2017”, com a diminuição gradativa das verbas públicas por parte do prefeito Daniel Antonio Guerra (PRB).

“Antes a gente tinha uma cidade de 500 mil habitantes, 20 milhões de PIB , o orçamento de cultura era de 19 milhões, agora está em 13 milhões. O orçamento da cidade cresce, mas o de cultura diminui em números fantásticos”, declarou Balen, que tem sofrido ameaças em Caxias por fazer oposição e lutar pela cultura da cidade. “A Natura Musical apoia sete projetos no Rio Grande do Sul, três estão em Caxias do Sul, isso mostra que a gente vem despontando como cena, que é bastante diversa, do eletrônico a música de raíz gaúcha.”

“Conto isso pra vocês como uma forma de vocês saberem o que está por vir, a gente foi resistência. E eu não sei se vou ser resistência, eu vou ser insistência, vou dar a mão pras pessoas e a gente vai falar quando puder falar. Sobre o Ministério da Cultura, tenho visto muita gente pessimista, acho não vamos ter Ministério da Cultura. Isso vai passar, não vai ficar nisso pra sempre, mas vamos ter que ter paciência”, falou Balen.

Ainda sobre a pasta do Ministério da Cultura, Dani Ribas comentou a declaração de Osmar Terra, que cuidará do Ministério da Cidadania, que irá absorver cultura, em que falou que só sabia “tocar berimbau”: “Não dá pra admitir um secretário de cultura que fala que sabe tocar berimbau e é o suficiente como gestor da nossa pasta, sendo que nós somos muito mais qualificados do que a média nacional. Então, reforçando o que a gente disse na mesa de abertura de hoje, a discussão não é fica MinC ou não fica MinC, nós merecemos respeito. Merecemos que sejamos tratados como nós contribuímos para o país. A cultura dá mais do que recebe, muito mais, a gente qualifica o mercado de trabalho. Detalhe, berimbau é super difícil de tocar, duvido que ele saiba tocar berimbau.”

* Texto: Bruno Dias Foto: José de Holanda

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