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Música, Tecnologia e o Futuro





Quem frequentou conferências sobre música pelo mundo nos últimos dois anos, com certeza, já se deparou com o tema “blockchain é o futuro”. Porém, poucos ainda estão familiarizados com a tecnologia que promete não apenas revolucionar a indústria da música como também radicalizar a maneira como as pessoas se relacionam. Exagero? Há 30 anos, quando alguém falava a mesma coisa sobre a internet, pouca gente levava a sério. Especialistas acreditam que estamos a um passo de uma nova revolução. Você está pronto?

A BLOCKCHAIN É UMA TECNOLOGIA DE REGISTRO CUJA DESCENTRALIZAÇÃO É SUA MEDIDA DE SEGURANÇA


O blockchain é uma tecnologia de registro cuja descentralização é sua medida de segurança, com dados distribuídos e compartilhados em todo o mundo com a função de criar um índice global para todas as transações que ocorrem em um determinado mercado.
O britânico Lee Parsons, fundador da Ditto Music, empresa de serviços de distribuição digital atuante em diversos mercados do mundo (Brasil incluso), contou que entendeu o que era blockchain em 2013 após dois dias de conversa com um produtor musical filipino: “Não vou tomar dois dias de vocês: imagine que você irá comprar uma casa e precise consultar seus registros, a escritura, e confiar neles, acreditar que não há nenhuma irregularidade. No blockchain, essa informação é segura e confiável, e tudo sobre a casa, desde a história de cada tijolo até as lâmpadas, está acessível a todos e não pode ser modificado“, tenta resumir.

O BLOCKCHAIN É DESCENTRALIZADO, NÃO HÁ NINGUÉM – NEM BANCOS, NEM GOVERNOS – MANDANDO NISSO - RODRIGO LOURENÇÃO


COMO FUNCIONA UM BLOCKCHAIN?


Entenda como funciona a tecnologia de segurança que leva mais transparência às transações virtuais, evitando fraudes.

1) Alguém pede para realizar uma transação utilizando uma criptomoeda (Bitcoin, Litecoin, Ethereum).
2) O pedido de transação é transmitido para uma rede P2P formada por uma teia de computadores, chamados de "mineradores".
3) A transação e a situação de cada usuário é validada pela rede de "mineradores", enviando as informações para teia por meio de algoritmos conhecidos.
4) Um novo bloco registrando essa transação é adicionado ao blockchain existente, de maneira permanente e irreversível.
5) A transação se completa.

ELIMINANDO ATRAVESSADORES


Rodrigo Lourenção, salesman da OriginalMy, certificadora digital brasileira especializada em blockchain, compara a tecnologia com um grande livro de contabilidade “em que você irá anotar todas as suas entradas e saídas financeiras”, explica. “Agora imagine que esse livro é de pedra e, depois que você escreveu uma vez, você não apaga aquilo nunca mais”, avisa, apontando uma das principais características da tecnologia: “O blockchain é descentralizado, não há ninguém – nem bancos, nem governos – mandando nisso ou ditando as regras sobre o que vai acontecer. Está tudo lá e qualquer pessoa pode ir consultar”, conta. Porém, “é muito mais do que um simples registro”, observa Tatiana Revoredo, estrategista de blockchain da Universidade de Oxford e coautora (junto de Rodrigo Borges) do livro Criptomoedas no cenário internacional (2018): “Ele irá criar maneiras novas de governança, irá intermediar relações e mudará a relação entre as pessoas, governos e indústrias”, prevê.

O BLOCKCHAIN DEVOLVE O PODER AO MÚSICO, AO COMPOSITOR - TATIANA REVOREDO


Para ficar mais fácil do leitor visualizar o que é essa tecnologia e o porquê de sua expectativa revolucionária, é preciso entender que o blockchain é uma rede cujo compartilhamento de dados cria cópias de documentos em computadores de todos os usuários conectados. O usuário utiliza a rede – “e são várias redes de blockchain. [...] Eu mesma já vi cerca de mil”, revela Tatiana – por meio de apps que podem oferecer a mais ampla gama de serviços que são pagos com uma moeda digital descentralizada, as criptomoedas (Bitcoin é a mais famosa) e que, atenção, elimina atravessadores e pagamento de taxas e impostos. “O blockchain devolve o poder ao músico, ao compositor”, explica Tatiana. “Os royalties [da indústria da música] acabam ficando, muitas vezes, no meio do caminho, e são as empresas que precificam o trabalho do artista. Quem manda no mercado são as grandes plataformas de música, não são os produtores de conteúdo, mas com a blockchain isso vai se inverter”, aposta.

O QUE É UMA CRIPTOMOEDA?


Moeda virtual aceita no mundo todo sem a influência de nenhum governo ou banco central.
É produzida de forma descentralizada e controlada por uma teia de computadores que registram todas as transações feitas, os blockchain (“cadeia de blocos”), como se fosse um livro caixa.
De acordo com a plataforma Coinmarketcap, existem mais de 1.800 moedas digitais diferentes, entre elas a pioneira Bitcoin, Litecoin, Ethereum e Ripple (XRP).

IMPACTO NO MERCADO DA MÚSICA


Como ocorrerá essa inversão? De uma maneira simples: assim que o artista subir o seu MP3 em um app no blockchain, ele terá definido diversas maneiras de pagamento pela execução da canção. “Através de uma série de tags internas com essas definições, criptografadas no MP3, se a sua música tocou na África do Sul à 1h30min da madrugada, nós saberemos, porque será reportado ao blockchain, e o direito autoral não só será pago instantaneamente como você poderá dividir com vinte ou trinta pessoas que trabalharam naquela música – do produtor, a todas as pessoas que participaram – e que também serão pagas na mesma hora”, elucida Lee Parsons, reforçando que a tecnologia tem potencial para acabar com uma “das grandes reclamações na indústria musical hoje: falta de transparência e pagamentos”.

O QUE VAI ACONTECER É A SOFISTICAÇÃO DE INTERMEDIÁRIOS - LUIZ AUGUSTO BUFF


Tatiana Revoredo cita outro exemplo prático da utilização do blockchain no mercado da música: “Você poderá, por exemplo, fazer venda de ingressos na plataforma, inclusive impedindo a prática de cambistas”, sugere. “Não apenas porque o ingresso terá o código do comprador, mas, além: você poderá programar para que esse ingresso só fique visível no dia do show e a um quilômetro do estádio. Você pode impedir também que esse ingresso seja revendido para mais de uma pessoa tanto quanto programar que essa revenda só possa ter 5% de ágio. E tudo isso numa mesma plataforma”, comenta. “Imagine então quantos intermediários que você tira do mercado trazendo o valor da música para quem realmente importa que são os compositores, os músicos. Você coloca o preço justo no seu devido lugar”, elogia. E aposta: “Os consumidores de música também vão preferir porque irá ficar mais barato para eles”.

TUDO QUE É NOVO E QUE MUDA VELHOS PADRÕES ACABA ENCONTRANDO RESISTÊNCIA - TATIANA REVOREDO


“Existe um mito da independência e do faça você mesmo. Tem que tomar cuidado. O que vai acontecer é a sofisticação de intermediários, com maior transparência, maior tecnologia, com fluxo mais rápido de informação”, alerta Luiz Augusto Buff, advogado, sócio-fundador e CEO da 1M1 Arte, escritório de produção e gestão musical. “O que isso faz, na verdade, é levar o controle, dos direitos e possibilidades para o artista. A transparência e a possibilidade de maior remuneração, ou remuneração mais justa do detentor dos direitos originais, e não a extinção dos intermediários.”

A EUROPA QUER FICAR NA VANGUARDA DESTA TECNOLOGIA - TATIANA REVOREDO


MÚSICA E BIG DATA


Big data é a análise de grandes volumes de dados e informações não estruturadas. Ferramentas de big data possibilitam estratégias de marketing que aumentam a produtividade e a tomada de decisões de negócios mais inteligentes.
Serviços de streaming como o Spotify se utilizam de big data para criar playlists dos usuários como a “Descobertas da Semana”, que dá sugestões de artistas e músicas baseadas nas faixas mais ouvidas da semana.
Já os small data são dados estruturados e prontos pra análise, ao contrário dos big data. Apesar disso, ambos são complementares, usados para deixar as tomadas decisões mais eficientes.

REVOLUÇÃO DESCENTRALIZADA


A resistência ao blockchain, porém, aumenta por seu caráter revolucionário. “Tudo que é novo e que muda velhos padrões acaba encontrando resistência do mercado vigente, mas é um caminho sem volta”, diz Tatiana. Rodrigo concorda, mas pondera: “É muito difícil dar uma previsão de quando as pessoas irão migrar para a blockchain, pode tanto bombar em um ou dois anos quanto ser uma tecnologia que demore mais dez para acontecer”. Lee Parsons é um pouco mais otimista: “As pessoas já estão usando Bitcoin, estão pagando por coisas em criptomoedas. Acho que daqui uns três anos eu e você estaremos utilizando alguma ferramenta da blockchain ao acordar”.
Tatiana conta que vários governos já perceberam que essa tecnologia é uma ferramenta de desenvolvimento econômico: “Está acontecendo uma corrida legislativa para ver quem consegue atrair a indústria blockchain para seu país antes de todo mundo. Suíça, China, Japão e o Parlamento Europeu estão bastante engajados nisso. E estão investindo pesado em pesquisas na área”.

O BRASIL É BUROCRÁTICO POR NATUREZA - RODRIGO LOURENÇÃO


Para Parsons, o Brasil seria um dos melhores locais “para utilizar a blockchain, porque o país precisa de transparência - não só - na música”. Já Rodrigo Lourenção vê na burocracia um obstáculo. Tatiana, por sua vez, lembra que, no que diz respeito à criptomoedas, “há o projeto de lei 2303 que está sendo discutido desde 2015, mas não se falou em blockchain ainda. Particularmente acho que deveriam caminhar junto”, esclarece. E rápido. O futuro talvez não perdoe esse atraso.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA MÚSICA


Aliada a machine learning e big data, a inteligência artificial é amplamente usada por serviços de streaming como Spotify, Deezer, Apple Music e YouTube para captar tendências e gostos musicais de seus usuários.
Playlists de mood e artistas relacionados são definidos por meio do algoritmo, que personalizam a experiência do usuário.
Produtores, artistas, cineastas e anunciantes estão cada vez mais se aproveitando de programas geradores de música utilizando a inteligência artificial.Composições são criadas com base no cruzamento de informações como tempo de duração, ritmo da melodia, e mood do público, utilizando para isso ferramentas como Amper, Magenta (Google), IBM Watson Beat e Melodrive.
A ideia é que o sistema escute o artista e lhe sugira mudanças, variações e melhoras, ajudando em seu processo criativo, conforme explicou Douglas Eck, do Google Brain (divisão da empresa especializada no uso de deep learning), ao jornal espanhol El País.

Foto: Criolina por Pedro Margherito
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