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PMX 2019: música e resistência, como tinha que ser





Por Veronica Pessoa

Estar na Palestina é mesmo uma experiência intensa: uma zona de guerra, um território ocupado, um povo que vive sob grande tensão, um festival de música, muitos sorrisos e alegrias, acolhimento e gentileza. Tudo convivendo junto, como não podíamos pensar que seria possível antes de chegar lá.

O Palestine Music Expo é um festival de música, mas sobretudo uma oportunidade para contar a história de resistência que se vive naquela região. E é estas duas coisa com uma maestria incrível! O PMX existe desde 2017 e é subsidiado majoritariamente por recursos do exterior e produzido numa parceria de artistas e ativistas palestinos com a Cooking Vinyl, empresa baseada em Londres. A edição 2019 aconteceu entre os dias 4 e 6 de abril.

Foram três dias num hotel em Ramala, cidade palestina no centro da Cisjordânia, aproximadamente 15 km ao norte de Jerusalém. Os shows são numa área externa e o público tem acesso através de um ingresso a preço acessível. A audiência é animada, conhece alguns dos grupos que tocam e fazem da noite uma festa. A estrutura de palco, som, luz e projeções, é de dar inveja a outros tantos festivais que frequentamos ao redor do mundo.

A noite de abertura foi acolhedora com artistas de várias regiões da Palestina, apresentando diversos sons. A banda El Conteiner trouxe balanço e executou bem a música que veio fazer. Toot Ard foi a grande surpresa dessa noite: saxofone implacável, chamou a atenção de cada um que estava por ali com um show dançante e eficiente.

O quarteto de mulheres cantoras e instrumentistas Kallemi Music foi dos grandes destaque do PMX 2019: as minas não brincam em serviço e mostram a força do feminino na Palestina (que não é pouca!!). Tocaram na segunda noite e levantaram o público. O rapper Saz veio na sequência e fez uma apresentação consistente.

Bashar Murad é um cantor palestino com performance forte e show estético: figurino, corpo, voz, tudo combinado pra um resultado bonito. Rimon Haddad, baixista virtuoso, foi intenso e seguro. Por fim, a banda DAM incendiou a noite! Liderado por uma cantora e dois cantores, o grupo fala com força das questões de ocupação, do corpo feminino e da resistência em um show bem humorado, alto astral e dançante - das melhores apresentações do PMX.

Destaque especial para os artistas de Gaza que tocaram no segundo e terceiro dias, que atravessaram fronteiras perigosas e instáveis pra fazer música em Ramala.

A experiência enquanto festa de música é mesmo incrível no PMX, mas o festival vai além. Há, de um lado, painéis e workshops para os artistas locais e, de outro, imersões na cultura palestina para os delegados estrangeiros.

Enquanto artistas palestinos encontravam managers, executivos de streamings, selos e bookers e se capacitavam para o mercado internacional, os “gringos” (era isso que nós, delegados internacionais, éramos nesse momento!) viajavam para os berços de tantas religiões, para cidades ocupadas pelo exército armado até os dentes, para além do muro, para entre os checkpoints, tentando nos capacitar para o que estava por vir nas noites de música naquela região. A produção guia com maestria o encontro desses caminhos e essa é a parte que faz essa experiência verdadeiramente única e intensa.
 
A Palestina e seu povo vivem hoje sob a ocupação do estado israelense e resistem fomentando a sua identidade. Música, dança, história são preservados à custa de ações de pessoas fortes. A resistência está lá e cada um de nós que está fora daquele lugar precisa olhar e conhecer o que acontece ali. Há força, há resistência, há felicidade e acolhimento. Me lembrou o Brasil de nossos dias tantas vezes.

Agradecimento especial às pessoas que guiaram meu tempo por lá: Martin Goldschidt e todo time da Cookin Vinyl (Celia e Lucy <3), Rami Younis, Wael Abu Jabal, Julian Issaq, Nick Welsh. Obrigada a cada delegado que esteve nessa empreitada durante esses anos de PMX e em especial a cada artista que resiste e faz música na Palestina!

Em frente!

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