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MARTE Festival 2019: uma experiência quase quântica em Ouro Preto





Por Dani Ribas

O MARTE Festival é recente, tem apenas duas edições. Em 2018 foi realizado em Mariana e neste ano em Ouro Preto, ambas cidades do circuito histórico de Minas Gerais.

O conceito do festival é ao mesmo tempo simples e potente. Música, arte e tecnologia, sintetizados na sigla MARTE, que remete também ao planeta. Uma astronauta ciborgue feita de inteligência artificial observa tudo o que se passa na Terra a partir de uma estação espacial marciana e alerta: “abra seus olhos para novos mundos”. É ela, com sua voz cibernética, quem anuncia todas as atrações do festival. Este é o mote para uma programação cujo objetivo é levar ao público propostas artísticas não convencionais que provoquem e causem reflexão.

A opção de realizar o festival em Ouro Preto não poderia ser mais acertada. A programação musical, intercalada com instalações audiovisuais e video mappings projetados sobre as construções históricas do século XVIII, é quase uma nave espacial que pousa sobre a pacata cidade encrustada nas montanhas. Futuro e passado se entrecruzam, e a sensação é a de uma experiência quântica: a de se estar ao mesmo tempo no passado e no futuro. Como na canção de Raul Seixas: “o hoje é apenas um furo no futuro por onde o passado começa a jorrar”.

O passado histórico e as montanhas que o protegem são metáforas perfeitas para a programação da abertura, realizada na Casa da Ópera, teatro todo feito em madeira inaugurado em 1770. É o mais antigo ainda em funcionamento nas Américas. Em sua origem no século XVIII, foi um dos primeiros a admitir mulheres dentre os artistas da companhia – uma exceção na conservadora sociedade colonial mineira. Na programação de abertura do MARTE, essa pequena jóia barroca abrigou o espetáculo de Felipe de Oliveira (artista performático de Belo Horizonte que fez uma espécie de “cabaret gay”) e também a viagem interior da premiada Maria Beraldo, que tocou nas noites da SIM em 2018. No século XVIII, a ousadia foi admitir mulheres no elenco. No século XXI, a ousadia é trazer artistas que discutem abertamente suas próprias sexualidades. Fios invisíveis unindo passado e futuro no mesmo espaço, trazendo mais uma vez a ideia de uma experiência quase quântica em quem estava presente.

O disco Cavala de Maria Beraldo é uma solitária e corajosa viagem às profundezas do eu. Ancestralidade e histórias que nascem “no interior de mim”, diz a artista. “Tenso”, faixa de maior projeção, fala da tensão entre a descoberta de um novo jeito de amar e a lembrança de uma antiga forma de sentir. Ao expor essa viagem interior num teatro pequeno, impregnado do conservadorismo de uma sociedade colonial e patriarcal, Maria Beraldo conseguiu expor sua intimidade de maneira ainda mais corajosa do que no premiado disco. Ali, ao vivo e tão perto do público, era possível ver o rosto de constrangimento de alguns e também a expressão de êxtase e descoberta de outros.

Ela deixou explícito que “Tenso” não era apenas seu tesão. Tenso foi ver que alguns (poucos) não suportaram esse “novo mundo” levado pelo MARTE e se levantaram da plateia – e o constrangedor rangido/gemido da madeira centenária do teatro acentuou a tensão. Tensa é a exposição real da intimidade num mundo em que ela é frequentemente camuflada pela falsa felicidade nas redes sociais. Assim como um eremita que choca e intriga a sociedade quando reaparece após o período de reclusão e transformação nas montanhas, Maria Beraldo, ao mesmo tempo, provocou e encantou o público ao se expor no palco da cidade encravada nas montanhas. O impacto é como o da chegada de um eremita em uma nave marciana a uma cidade ainda ligada ao século XVIII mas também curiosa pelo futuro.

Ouro Preto não poderia ser melhor cenário para a discussão promovida pela programação do MARTE. Os shows da famosa Praça Tiradentes se intercalavam com projeções futuristas em video mapping no histórico prédio do Museu da Inconfidência, do outro lado da praça. O show “Azul Moderno” de Luiza Lian corroborou o conceito do festival ao evocar “comparações surreais entre as estrelas em volta de Andrômeda e seu manto azul moderno”. A liturgia afro-brasileira das Pombas-gira e Iaras de Luiza pareceu fazer ainda mais sentido numa cidade repleta de igrejas católicas em estilo barroco.

É ao vivo que as expressões individuais de qualquer artista ganham dimensão coletiva, pois é quando tocam em pontos questões do momento presente. É aí que deixam de ser apenas inspiração individual para serem pertinentes ao seu tempo histórico e ressignificar concepções cristalizadas, como as pedras preciosas escondidas nas montanhas de Minas Gerais.

A música tem esta função de mobilizar nossa percepção para a existência de novos mundos. Festivais são os eventos onde isso materializa, onde a música ocorre de maneira coletiva e compartilhada, fazendo com que novos significados passem a fazer parte da cultura que compartilhamos com nossos contemporâneos. São esses significados, formulados coletivamente a partir das expressões artísticas individuais, que poderão transformar o mundo em que vivemos. Sem eles, e sem espaços de sociabilidade e formulação de sentido como os festivais, estaremos fadados a reproduzir eternamente um presente sem perspectiva. Defender a existência da música e dos espaços que a abrigam é defender nossa própria existência em sua plenitude, em toda sua potencialidade. Que venha a nave! Vida longa ao MARTE!

#SIMConecta

 

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