A SIM São Paulo 2017 pelo olhar de um credenciado

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Por Eduardo Lemos – Navegar Comunicação

#diáriodaSIM
primeiro dia. chegamos um pouco atrasados e perdemos a mesa das feiras internacionais. tentamos até ficar numa fila de espera, em que dava pra usar fones com tradução simultânea. mas o calor que fazia na ante sala do teatro foi pouco a pouco espantando todo mundo, inclusive nós. anotamos a primeira lição da SIM: se você não quer perder uma mesa, chegue uns 30 minutos antes. então vamos circular um pouco, vamos sentar num banco qualquer do Centro Cultural São Paulo, vamos organizar melhor nossos kits de divulgação – a saber: uma ecobag, e dentro dela os mais recentes discos de Luiz Gabriel Lopes [“MANA”] e Enzo Banzo [“Canção Escondida”], um card explicativo de cada um dos artistas e um card geral da Navegar, em que contamos um pouco da nossa história e dos demais trabalhos que fazemos. a ecobag é branca e traz a frase “um verso pra fazer uma canção às vezes tem a força da bomba nuclear”, trecho de uma música de Herbert Vianna e Pedro Luis [“A Mais”, do disco O Som do Sim, 2000]. vamos também pedir um café médio, vamos ver chegar um monte de gente, rostos que conhecemos de muito tempo, rostos que desconfiamos conhecer de algum lugar (“aquele ali não é o… daquele dia do…”), rostos que só conhecemos pelo Facebook, e também vai chegar aquele jornalista, curador e programador que quase todo mundo já sacou ser picareta, mas ainda assim, até o fim do dia, vai todo mundo apertar a mão dele, sagrar-lhe uns tapinhas nas costas e fingir que no pasa nada.
ainda estamos no café a tempo de ver um norueguês ser apresentado à coxinha. uma moça de sotaque mineiro-categoria-Belo-Horizonte conversa animadamente com uma moça sotaque-paulista-categoria-Mooca, meu. vamos todos – o norueguês, a mineira e a paulista – pra mesa “produtor não é canivete suiço”, sem dúvida alguma o melhor título de debate deste dia. estamos na fila e uma mulher de 40 e poucos anos vai se aproximar e perguntar: aqui é a fila do canivete?
no palco, seis produtores de diferentes trajetórias e atuações começam a se apresentar para o público que lota o teatro de 100 lugares. em sua maioria, os produtores ocupam lugar de destaque no chamado ‘midstream’ – o patamar do meio, aquele em que estão nomes como Marcelo Jeneci, Liniker, O Terno, que não são populares como os sertanejos, nem desconhecidos como a maioria dos artistas que estão naquela plateia. a exceção ao perfil é o produtor de dois artistas mainstream, um vindo dos anos 90, outro dos anos 2000.
eles tentam dar conta de um dilema importante no atual cenário da música – um profissional que faz várias funções é essencial ou mortal para a prosperidade de uma carreira? todos são unânimes em dizer que é mortal, mas a baterista de uma banda indie está na plateia e vai questionar que isto está sendo falado do ponto de vista de produtores que estão com carreiras em pleno funcionamento. e a galera que não tem grana pra ter um profissional para cada função, faz o que?
uma produtora brilhante, contemporânea da turma do palco, está na plateia e faz defesa enfática de que o modelo de trabalho atual acabou – é preciso inventar um novo pacto entre produção e artista, entre artista e público. o baterista de uma banda brasileira independente e de sólida carreira está na plateia e pede a palavra: “desculpem a simplicidade da pergunta, mas sempre quis saber como é que funciona um escritório em que as coisas são separadinhas. será que vocês podem contar como é o fluxo de trabalho na empresa de vocês?”. é a última pergunta da mesa, e a que gera resposta mais efetiva dos produtores.
a desconexão entre palco e público reaparecerá nas mesas “conexão lusófona” e “festivais diversificam público?”. na primeira, os exemplos de artistas brasileiros que lograram êxito na terra de Rui Reininho – nomes como Céu, Criolo e o Terno – parecem não dar conta da expectativa da plateia, especialmente dos músicos da plateia, que, ao que parece, gostariam de saber mais sobre os caminhos para entrar em Portugal, e não (só) os caminhos de quem já entrou e agora busca aumentar sua presença. recordo de um produtor lá da mesa do canivete, que falou diversas vezes frases como “já atingimos o teto do midstream; como quebrá-lo e continuar subindo?”, uma dúvida certamente justa, mas talvez apenas para aquele pequeno grupo que está no palco. na mesa “festivais diversificam público?”, fiquei por 45 minutos e não pude ir até o final porque ia começar a mesa lusófona. mas neste tempo em que ali permaneci, a pergunta não foi contemplada. os curadores de diversos festivais do Brasil se limitaram a falar de seus conceitos de curadoria, fazer um apanhado de suas trajetórias e comemorar em público o recente patrocínio do edital Natura Musical – todos que estavam ali foram contemplados. o clima institucional só foi quebrado, segundo relatos que ouvi depois, quando (1) alguém na plateia disse entender que os festivais acabam selecionando sempre os mesmos artistas (2) alguém na plateia disse estar preocupado com o excesso de apoio da Natura em projetos de música. “e se a Natura um dia desencanar da música?”, era sua dúvida. os curadores, sempre segundo relatos, se ofenderam – e não quiseram entrar nessa de outros caminhos.
muita gente olhando seu crachá, você olhando o crachá de muita gente. a SIM é incrível para quem deixa o ego lá fora e consome cada segundo como um garoto que abre os olhos pela primeira vez. foi um dia, apenas, mas é possível ter um panorama efetivo de como a música está sobrevivendo. causa calor contínuo no coração lembrar que existe tanta gente boa tentando viver de e para a música. ainda que vá se falar pouco de invenção, muitas histórias bonitas, muitas, vão passando na timeline da vida real, como a do músico que se apresenta como o canivete suíço mais brasileiro possível: ele atua em todas as áreas de sua carreira, mas pra cada uma ele tem um nome, um e-mail, um telefone e um WhatsApp com foto diferente. como é ator, diz que é fácil criar personagens com vozes, sotaques e maneirismos virtuais. a plateia bate palmas. ou o vice-cônsul de Angola, que na mesa lusófona parece um pouco deslocado dentro do papo de especialistas, mas que nada: é dele a defesa mais enfática das nossas raízes comuns com Portugal, Cabo Verde, Angola e outros países [“a nossa música não tem fronteiras!”, ele repete, diversas vezes, conquistando sorrisos pela maneira emocionado de expressar tão combalido e poderoso pensamento]; bem humorado, o vice-cônsul de Angola mistura histórias pessoais (ele tem 15 irmãos e seus pais vivem juntos há mais de 50 anos) com detalhes musicais (sua mãe, em Angola, casou ao som de Roberto Carlos e não acredita quando o filho conta que o Rei ainda está vivo). a conclusão da mesa lusófona é inequívoca: há um oceano literal de possibilidades entre nós, simplesmente porque falamos a mesma língua. então por que estamos parados? enquanto isso, a poucos metros dali, a mesa dos festivais acabou, e dezenas de artistas e produtores formam filas para tentar falar com os curadores, nem que seja por um minutinho, nem que seja pra deixar um disco em cima da mesa para a qual, nesse instante, todos eles estão de costas.





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