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Mercat de Vic celebra música, política e pertencimento na Catalunha





Por Dani Ribas

Foi minha segunda vez em Vic, cidade que impressiona tanto por suas construções medievais quanto por sua força política no independentismo catalão. Vic sedia anualmente o Mercat de Música Viva de Vic (MMVV), festival governamental que em 2019 realizou sua 31a edição. Sim, há 31 anos o evento acontece com o apoio do governo local. Isso demonstra a importância da música para a ideia de país – a Catalunha – cujos maiores bens comuns são a língua e a cultura. Concordando ou não com o independentismo catalão, é inegável que a cultura é o lençol freático profundo que alimenta a ideia de autonomia desse povo. Lá há bandeiras catalãs por toda parte. Bandeiras são símbolos produzidos pela cultura. Na Plaça Major, principal da cidade e que abrigou um dos grandes palcos do festival, há também bandeiras com os rostos de exilados políticos perseguidos pelo governo Espanhol, e uma grande faixa escrito “us volem a casa” (nós queremos vocês em casa). A “casa” é onde as pessoas se reconhecem como parte de uma mesma família, uma mesma comunidade, e para isso a dimensão cultural é primordial.

Vic não é minha casa, mas me senti acolhida como se estivesse na minha. Assim que cheguei, participei de um café da manhã com os profissionais internacionais. Cerca de 15% dos 750 profissionais credenciados não era nem catalão nem espanhol. E um café da manhã logo no início das atividades ajudou muito a concretizar as conexões que fomos buscar. A programação profissional do festival, apoiada pela Ação Cultural Espanhola (AC/E) e pelo Programa de Internacionalização da Cultura Espanhola (PICE), também promoveu reuniões de associações e festivais (Forum of Worldwide Music Festival, MaMA Paris, JUMP, Why Portugal, MIL Lisbon, Eurosonic), apresentações de empresas de agenciamento e empresariamento artísticos, além de cases e speed-meetings. Todas elas importantes oportunidades de conexão. 

Conexões são os ativos mais importantes de mercados e music conventions como o MMVV e como a SIM São Paulo. Venho falando há algum tempo que as feiras e festivais são importantes pela conexão de redes profissionais. Em todos os eventos desse tipo de que participei até agora é visível como a construção das redes profissionais é um processo que amadurece com o tempo, e como essas redes são importantes para o intercâmbio de ideias e propostas artísticas entre países.

Em 2018, a SIM São Paulo participou do MMVV e esse contato inicial foi fundamental para divulgação do evento e ampliação do número de inscritos de bandas espanholas nos showcases diurnos da SIM 2019 - e uma delas foi selecionada: Zulu Zulu. Essa participação no ano passado, fortaleceu a cooperação entre MMVV e SIM. Este ano, a SIM foi destaque na programação MMVV 2019 com apresentação da feira e do DATA SIM num talk.

Também tivemos reuniões fechadas com importantes players do mercado europeu - Associação de Salas de Concerto da Catalunya (ASACC), e da Associação de Mulheres na Indústria da Música Espanhola (MIM). Conversamos sobre as pesquisas DATA SIM “Mercado de Música da Cidade de São Paulo - Parte 1 - Espaços de Música ao Vivo” e “Mulheres na Indústria da Música do Brasil”, e sobre as questões de nossos respectivos mercados: como a Lei SP Cidade de Música, aprovada em primeira instância desde 2017 mas que recentemente teve editais cancelados pela Prefeitura Municipal de São Paulo; e no sentido oposto o exemplo de regulamentação das pequenas salas de música ao vivo de Barcelona, ocorrido em maio de 2019. A participação da SIM também foi registrada pela imprensa catalã e pode ser conferida aqui:

 

As atividades profissionais se concentraram no Espaço Atlântida, centro cultural onde também aconteceu a abertura oficial. O espetáculo The Last Way of Walter Benjamin (O último caminho de Walter Benjamin), de Juliane Heinemann, ocupou o Teatro Atlântida na primeira noite do evento, e foi extremamente impactante e coerente com a história do lugar. A produção, que rendeu o prêmio Puig-Porret em 2018 à artista de Berlim estabelecida em Barcelona, é uma homenagem ao 80º aniversário da morte do filósofo alemão Walter Benjamin. Benjamin, judeu alemão, escreveu diversas obras, e dentre as mais importantes estão A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica de 1936 e Teses Sobre o Conceito de História de 1940, que foi seu último escrito. Sua morte teria ocorrido durante a tentativa de fuga dos nazistas através dos Pireneus, quando foi parado pela polícia espanhola. Temendo ser entregue à Gestapo nazista, Benjamin teria cometido o suicídio por envenenamento. O espetáculo – uma viagem onírica através da música eletrônica, poesia e projeções sobre telas translúcidas à frente e atrás da banda – reproduziam o ambiente sombrio e enevoado das montanhas onde a fuga e o suicídio teriam ocorrido. Foi inesquecível, por vários motivos. A curadoria não poderia ter sido mais certeira: a escolha desse espetáculo para a abertura não é outra coisa que não uma analogia à situação dos catalães exilados do território espanhol, e a de todos os exilados e refugiados num mundo em que projetos políticos se resumem à construção de muros e ao extermínio do diferente. Foi lindo, sublime e contundente, tanto para catalães como para mim, brasileira, que diante da atual situação do país não mais reconhece sua “casa” como um lugar seguro para viver, sonhar, compartilhar; que assim como o “anjo da história”, da tese IX de Benjamin, vê uma catástrofe que acumula escombros sobre escombros onde os outros vêem apenas uma série de eventos...

Além do Teatro e do Auditório do Espaço Atlântida, o festival contou com mais sete palcos oficiais espalhados pela cidade: Carpa Negra, Carpa Vermella (ambos próximos ao Espaço Atlântida), Plaça Major, Plaça dels Màrtirs e El Sucre (maiores palcos do festival), Jazz Cava (pequeno clube que abrigou as bandas menos conhecidas) e Casino de Vic. No sábado e domingo pequenos palcos do circuito off podiam ser encontrados pelo centro histórico. 

Oitenta bandas se apresentaram nos nove palcos oficiais, sendo que mais da metade das propostas foram estreias ou lançamentos - o que confirma uma das principais funções de festivais: a renovação da cena a partir da abertura para o novo, o não consagrado, para trabalhos que diversifiquem o repertório do público. É a partir dessa diversificação de repertório que a música contribui para a formação cultural de um povo. 

Alguns destaques da programação musical foram Aiala (urban/reggae), Nico Roig (pop), Marco Mezquida (jazz), Los Aurora & Band Dulda (flamenco jazz), Ferran Palau (pop), Maruja Limón (fusión flamenco), Yawners (pop rock), Gertrudis (fusión rumba), Os Amigos Dos Músicos (pop-folk), Mateo Kingman (world eletrônica) e Carla (pop-eletrônico). Todos tiveram excelente recepção por parte do público e dos profissionais. Além desses, meus destaques pessoais vão para: Lina_Raül Refree, projeto que reúne a fadista Lina, grande aluna da obra de Amália Rodrigues e Raül Refree, conhecido por produzir trabalhos de Lee Ranaldo, Silvia Pérez Cruz, Albert Pla e Rosalía; Gato Preto, grupo africano com integrantes de Moçambique, Ghana e Senegal, com passagens por festivais como Glastonbury, e que tem uma  apresentação altamente energética, misturando bases eletrônicas, percussão e a performance de MC Gata Misteriosa; Side Chick, pop rock fruto do encontro improvável entre uma americana, uma barcelonesa e um venezuelano; Balkan Paradise Orchestra, banda de instrumentos de sopros e percussão de Barcelona que traz melodias da tradição balcânica; Tribade, hip hop feminista de Barcelona (que eu já havia conhecido no MIL Lisbon no início do ano); e o brasileiro Filipe Catto, que em duo com o guitarrista português Alexandre Bernardo, fez um show impecável emocionando a plateia na Carpa Vermella. No ano passado o MMVV também tinha entre suas atrções uma artista brasileira, LaBaq. Ambos artistas já passaram pela SIM São Paulo.

Além dos shows voltados para o público do festival, houve também uma intensa programação familiar, como o próprio festival denominou. No sábado e no domingo diversos palcos tiveram programação voltada ao público infantil, com impacto direto nas ruas da cidade, onde se podia ver famílias inteiras – com carrinhos de bebê e tudo – desfrutando o dia na rua e ensinando as novas gerações, através da música, o sentido comum de “ter uma casa”.

O protocolo contra a violência sexual em ambientes de lazer desenvolvido pela Generalitat de Catalunya foi aplicado pela primeira vez em Vic durante o MMVV 2019 e incluiu a formação das pessoas que atuam no mercado para detectar atitudes que podem causar agressão sexual, identificá-las mais facilmente e saber por que canal podem denunciá-las. Se houvesse uma agressão sexista, havia pessoal treinado para atender à pessoa e em dois pontos de apoio, um na Plaça Major e outro no Sucre.

A organização do festival é impecável. E, em nome da SIM, envio um agradecimento à toda a equipe, e em especial à Montse Portús e Oriol Roca, que me receberam com muito carinho e competência. Sem dúvida o MMVV é o principal festival da Catalunha, com um impacto econômico de 4,7 milhões de Euros (em 2017).

Para mim, Vic já é um lugar de memória, daqueles que se guarda o lado bom da saudade. Nas duas visitas, foram dias incríveis compartilhados com gente maravilhosa, para onde espero voltar muitas vezes mais.

Veja mais fotos aqui.

 

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