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Music Cities Chengdu: o poder da música na economia do intangível





Por Dani Ribas

Quando saímos de contextos particulares e nos dirigimos a um país com hábitos tão diferentes, não há como diminuir o poder que a cultura exerce em nossas vidas: ela permeia todas as impressões e comparações. Aos olhos de uma ocidental, na China, tudo parece diferente.

País imenso, com tradições culturais milenares e uma diversidade cultural impressionante, na China, o Estado se faz presente em praticamente tudo, inclusive no fomento à cultura. As apresentações do 8º Music Cities Convention em Chengdu, nos dias 11 e 12 de abril, mostraram isso em números e os passeios pela cidade provaram quão real é a participação da cultura na vida das pessoas.

Organizado pela consultoria Sound Diplomacy, o evento é uma conferência de alcance global que discute a relação entre a música e o ambiente construído nas cidades, com cases em que o valor da música é explorado para o planejamento urbano, para a política de desenvolvimento e para a qualidade de vida dos cidadãos. Em dois dias, a conferência reuniu 48 speakers e mais de 500 delegados da China e do resto do mundo, incluindo líderes de governos, acadêmicos, organizações e representantes da cena musical para discutir, debater e refletir sobre novas ideias.

O Music Cities Chengdu trouxe os cases das cidades de Bolonha (Itália), Nova York e Nashville (USA), Pequim (China), Sarawak (Malásia), Kingston (Jamaica), Melbourne (Austrália), Seul (Coreia do Sul), além do estado do Mississipi e do Alaska (USA), para mostrar como cada território utiliza a música em estratégias de desenvolvimento econômico e social, na construção da marca e em sua promoção.

DATA SIM e os hubs musicais brasileiros
Fui a Chengdu representar o DATA SIM no painel "Desenvolvendo Hubs Musicais de Nível Mundial”, juntamente com profissionais dos USA, China e França. A discussão foi sobre como estas redes se formam e ajudam a criar espaços seguros e estimulantes para artistas em todo o mundo, engajando comunidades para que a música seja tanto um fator de desenvolvimento econômico quanto de humano e transformação social, contribuindo também para o fortalecimento da identidade cultural do local.

Na apresentação, apontei as especificidades do hub musical da capital paulista, que abriga muitas cidades em uma. Centro, bairros e periferia são diversificados e possuem suas próprias lógicas, mas interligadas. Nossa primeira pesquisa em espaços de música demonstrou isso com dados: São Paulo é diversa, cosmopolita e aberta ao novo e experimental. E o Brasil tem as mesmas características: são muitos países dentro de um. Cada região pode ser considerada um hub e as diferenças econômicas e sociais entre as regiões acrescentam elementos interessantes à dinâmica musical. As periferias são muito criativas e trazem o que há de mais inovador em produção musical. Estamos muito atentos a essas dinâmicas, estudamos e acompanhamos de dentro, com um ponto de vista nativo e privilegiado para observar essas questões, pelo DATA SIM e pela SIM São Paulo. Nosso conceito de hub leva tudo isso em consideração e nossas pesquisas refletem isso.

Também ressaltei o papel da SIM São Paulo na articulação e engajamento das redes de músicos e profissionais - pressuposto número um de hubs musicais. A qualificação do mercado profissional através da conferência também teve destaque no debate, já que hub é um mercado altamente profissionalizado. O DATA SIM já nasceu apoiado pela rede da SIM São Paulo, maior conferência de música do Brasil e da América Latina. Em 2018, participaram programadores de cerca de 150 festivais brasileiros e latino-americanos e profissionais de mais de 25 países. Estamos ligados e apoiados por várias instituições internacionais (Consulados, Embaixadas, Agências de Exportação), somos parceiros em festivais como o MIL Lisboa (Portugal), o FIM Pro (México). Temos uma rede muito forte e isso torna muito boa a nossa relação com o ecossistema. Nosso poder de conectar-se a todos os públicos é ótimo.

A missão do DATA SIM é entender e medir o valor da música, através de pesquisas e estudos para obter dados sobre o mercado. Nosso maior desafio no Brasil é a falta de compreensão governamental. As recentes mudanças políticas são obstáculos reais para a construção de uma visão estratégica de cultura. Estamos trabalhando justamente para contribuir para uma melhor compreensão do valor da música em nossa sociedade, tanto do ponto de vista econômico como cultural. Em um país onde a cultura e a música nunca foram prioridades de governo, queremos, com nossas pesquisas: impulsionar o mercado e orientar marcas sobre como investir em música; influenciar os governos na construção de políticas capazes de reposicionar o país no cenário mundial; e transformar a vida das pessoas, de todas as classes sociais. Dados e estudos podem impulsionar uma transformação real em nossa sociedade. Com este trabalho de pesquisa e com a rede que articulamos a partir da SIM São Paulo, acreditamos que estamos desenvolvendo um hub de música mesmo sem o apoio do governo.

Mercado Chinês
Dados da IFPI (International Federation of the Phonographic Industry) relativos a 2018 mostram que a China é o 7º maior mercado do mundo, atrás de USA, Japão, Reino Unido, Alemanha, França e Coreia do Sul, e à frente de Austrália, Canadá e Brasil. Em 2018, a Ásia e a Australásia se tornaram a segunda maior região global de receitas físicas e digitais combinadas, registrando crescimento de 11,7%. A primeira é a América Latina, com crescimento de 16,8%.

No Music Cities Chengdu, a consultoria iResearch apresentou o Digital Music Industry Report da China, com detalhes desse mercado não cobertos nos relatórios da IFPI - como uma comparação com o mercado norte-americano, por exemplo.

A principal gravadora chinesa, a China Recording Group, trouxe para a Conferência os desafios e oportunidades de uma das indústrias mais prósperas do mundo. O representante da We Capital (China) explicou como as empresas podem investir na China e quais são os principais desafios.

Já a apresentação do órgão gestor da Cultura em Chengdu (Chengdu Culture, Radio and TV, Press and Publication Bureau) demonstrou como a cidade tem sido um centro de música multicultural desde a dinastia Tang de 618-907. Chengdu se apresentou como próxima cidade musical da Ásia e apontou quais serão suas principais estratégias para o desenvolvimento do setor na cidade: o Festival Internacional do Patrimônio Cultural Imaterial e a criação do novíssimo Chengdu Concert Hall. Um painel sobre o mercado chinês discutiu todos esses pontos levantados nas apresentações.

Cidades Musicais pelo mundo
A música como impulsionadora do turismo também foi tema de debate trazendo o caso de Gênova, na Itália, e do Mississipi, nos USA, além de abordar especificamente o papel da ópera tanto em Gênova como em Tenerife (Ilhas Canárias, Espanha).

A apresentação envolvente de Pierce Freelon, professor, diretor, músico, produtor vencedor do Emmy e ex-candidato a prefeito de Durham, Carolina do Norte (USA), contou como os jovens podem contribuir para o desenvolvimento humano da sociedade e para a sustentabilidade da cadeia produtiva da música.

Além disso, representantes dos USA, UK, Austrália e Malásia conversaram sobre o  potencial das relações entre música e educação. Julia Jones, da Found in Music do Reino Unido, expôs como a música pode atuar na saúde cognitiva. Merlijn Poolman, Prefeito da Noite de Groningen, Holanda, fez uma apresentação vibrante sobre a Economia Noturna e Prefeitos da Noite. E a força da música como ferramenta para o desenvolvimento econômico também foi debatida por líderes dos USA, UK, Austrália e Canadá.

Valor da cultura
Se a importância da cultura e seu inestimável valor simbólico não são percebidos por si sós pela sociedade e pelos governos, a economia deveria ser um bom argumento. Governantes deveriam aproveitar as viagens oficiais para sentir na pele como as questões culturais nos formam, orientam nossas visões de mundo, nos tornam nós mesmos e influenciam a maneira como somos vistos no mundo. Sem reconhecer esse valor - que a China enxerga muito bem - o Brasil jamais será um país inteiro, desenvolvido e pronto para seu futuro.

Commodities são importantes - e a China também sabe muito bem disso. Mas estamos vivendo uma era de economia do intangível. Os relatórios da IFPI dão os números bilionários do consumo musical armazenado na nuvem. Essa economia do intangível, ou criativa, faz com que serviços sofisticados, “enriquecidos” justamente pela criatividade, ganhem espaço até na produção de manufaturados. A China dá uma lição de como reconhecer esse valor da cultura e como utilizá-lo para seu crescimento.

A música, linguagem universal por excelência, é um dos grandes ativos do Brasil nessa economia do intangível, e menosprezar seu papel no desenvolvimento humano e econômico do país é dar as costas para o futuro.

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