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Revista SIM São Paulo 2019 - Música para viver melhor





Por Thiago Ney // Foto: Tiê, SIM São Paulo 2017, por Pedro Margherito

 

“A música salvou a minha vida. E a de muitos dos meus fãs. Todo show, pelo menos duas ou três pessoas vêm me dizer que canções minhas as ajudaram a sair da depressão ou as fizeram parar de pensar em tirar a própria vida. A música realmente pode nos ajudar a passar por momentos complicados.”

O depoimento é de Tiê, 39 anos. A cantora conta que, no final de 2004, excursionava com Toquinho pelo Chile quando se sentiu mal. Teve febre, ficou muito doente. Pouco depois, já no Brasil, teve de passar por uma cirurgia no pulmão. Por causa de lúpus, uma doença autoimune.

“E foi ali, durante o tratamento, que compus a minha primeira canção, ‘Chá Verde’. Eu não sabia tocar direito, muita gente até me criticava por isso, mas a música foi a saída que encontrei para sair daquela situação. Ela é muito poderosa. Nos faz bem, nos faz mais fortes”, revela. “Tive algumas crises durante a minha carreira, mas o que me faz continuar é essa certeza de que a música vai ajudar outras pessoas.”

Canções servem como trilha sonora de momentos festivos, nos ajudam a resgatar boas (e nem tão boas) lembranças. Mas algo que muitas vezes não nos damos conta é a capacidade da música de nos ajudar a enfrentar o dia a dia, de nos motivar a sair de situações difíceis. De curar.

Não é à toa que ao digitar “music and wellness” o Google nos ofereça mais de 10,5 milhões de resultados, porque a música está conectada ao bem-estar humano há um tempinho mais ou menos razoável: há relatos de povos pré-históricos que utilizavam uma espécie de flauta feita a partir de ossos de animais para realizar espécies de cultos.

A música hoje não apenas está em muitos dos lugares que frequentamos como também pode ser acessada facilmente – com um ou dois cliques no aparelho celular, temos acesso a praticamente qualquer faixa produzida nos últimos séculos. A música é onipresente – e ainda bem, porque é um agente transformador, que nos ajuda a socializar e a conhecer gente, a enfrentar momentos difíceis e é inclusive indicada para o tratamento de doenças como ansiedade e depressão.

No Brasil, antes da chegada dos portugueses em abril de 1500, povos indígenas já utilizavam instrumentos musicais e a dança em uma série de rituais; para celebrar uma boa caça ou pescaria, para comemorar a entrada na vida adulta, em festividades e até para relembrar os mortos.

A relação entre música e bem-estar, portanto, está longe de ser uma novidade, mas apenas recentemente ela passou a ser mais bem radiografada. Em abril de 2019, a fabricante de equipamentos eletrônicos Sonos divulgou a extensa pesquisa Brilliant Sound Survey, feita em 12 países (dos Estados Unidos à Austrália, do México à China, passando por França e Reino Unido) com 12 mil pessoas que tinham entre 12 e 50 anos. O estudo revela que o hábito de ouvir música reduz o estresse, aumenta a produtividade, ajuda a nos conectarmos com outras pessoas e melhora a saúde. Além disso, aqueles que ouvem canções por três horas ou mais a cada dia afirmam que a música é mais essencial do que café, televisão ou, veja só, sexo.

Alguns dos números da pesquisa parecem tão surpreendentes quanto um show do White Stripes no Teatro Amazonas. Por exemplo: 36% dos participantes afirmam que a música é capaz de fazê-los rir ou chorar; 68% dizem que têm o humor turbinado; 74% se sentem menos estressados quando percebem que a canção favorita está sendo tocada.

Mais números: um pouco mais da metade tem a certeza de que não seriam tão bem-sucedidos não fosse pela música. Entre os que praticam atividades físicas regulares, 75% apontam a audição de faixas como o fator que tem o maior impacto em sua saúde (maior do que o de qualquer suplemento). E 77% dizem que, quando a preguiça bate, a música faz com que eles tenham a motivação para não deixar de malhar.

Professor de psicologia da música no Goldsmiths College, da Universidade de Londres, o alemão Daniel Müllensiefen afirma, a respeito da Brilliant Sound Survey, que “muita gente provavelmente não tem ideia do quanto depende da música para equilibrar o humor durante o dia. Não valorizamos isso, porque a música está muito mais disponível hoje do que antigamente”.

Müllensiefen diz que os cientistas “descobriram evidências de que estamos (neurologicamente) conectados para perceber e apreciar a música, bem como para nos relacionarmos por meio da música. Isso explica por que a música é uma parte onipresente da experiência humana. (A música) É única, no sentido em que afeta diferentes funções psicológicas. Ela pode ativar o gatilho das mesmas áreas no cérebro que os alimentos, o sexo e outras atividades recreativas, inclusive como alguns medicamentos”.

A Brilliant Sound Survey mostra algo que muitos pesquisadores já provaram: a música é um agente terapêutico, e dos mais eficazes, para ajudar em casos como os de ansiedade.

“A música tem uma história antiga de mover o estado psicológico de alguém de um lugar para outro. Por exemplo, imagine ouvir uma música que lembra um avô já morto, e ser tomado por um sentimento de saudade ou ouvir a canção da sua formatura e ser preenchido por uma sensação feliz de nostalgia”, disse David John Baker, doutor em teoria da música com especialização em ciências cognitivas e do cérebro, à revista Forbes.

Baker é um dos criadores do Brainwaves, projeto que reúne uma série de faixas musicais que, ao serem ouvidas, ajudam a aliviar o estresse causado por longas viagens. São obras que têm entre 16 e 20 minutos e que auxiliam a combater a falta de concentração e a insônia.

“Se a música pode ser usada para mover o estado psicológico de alguém de um lugar para outro, por que não tentar criar faixas especificamente para ajudar alguém a se concentrar, a dormir ou a superar um período temporário de ansiedade?”, disse o pesquisador. O projeto Brainwaves está disponível em diversas plataformas de streaming, como Spotify, Deezer, Apple Music, Bandcamp, entre outras.

Revistas médicas e pesquisas acadêmicas cada vez mais exibem evidências de como a música ajuda tanto no nosso bem-estar como no estado de saúde.

“Considerando todos os benefícios possíveis, as intervenções musicais podem fornecer uma abordagem complementar eficaz para o alívio da dor aguda, processual e crônica no ambiente médico.” Assim é concluído um estudo publicado na revista Oxford University Press no final de 2016.

Outro estudo, publicado no norte-americano National Center for Biotechnology Information, afirma que a música pode ser uma “alternativa viável aos sedativos e medicamentos antiansiedade para reduzir a ansiedade pré-operatória”.

Terapeuta da Harvard Medical School, Adam Sankowski explica que cérebros e corpos se conectam naturalmente a uma nota musical. Ele dá um exemplo: “Imagine assistir a um filme de terror sem nenhuma música. Como você saberia que está prestes a tomar um susto? Da mesma maneira, todo evento esportivo utiliza músicas para animar a multidão. A música é usada em todo o mundo para manipular o nosso humor”. O mecanismo é o mesmo quando queremos dormir melhor, ou produzir mais.

“Uma orientação básica é tentar combinar a música com o humor que você deseja ter. Em vez de ouvir a música que corresponde ao seu humor atual, tente ouvir a música que corresponde ao sentimento que você deseja ter.”

"O que me faz continuar é essa certeza de que a música vai ajudar outras pessoas"

 

O pop investe na maconha

 

Música. Bem-estar. Maconha. A combinação forma um tripé que ajudou a moldar a cultura pop ocidental desde a segunda metade do século 20.

A maconha teve um papel fundamental entre os jovens que desenharam a contracultura dos anos 1960, motivados por um desejo de criar um mundo mais justo, saudável, feliz, pacífico. Era um movimento que influenciava (e era influenciado por) bandas e artistas como The Doors, Jimi Hendrix, Sly & the Family Stone, Grateful Dead e vários outros.

Recentemente, os efeitos benéficos da maconha para o bem-estar individual passaram a ser ainda mais pesquisados. E os resultados são incontestes.

Tanto que o uso recreativo da maconha já está legalizado em 11 estados dos EUA, além da capital do país, Washington (já o uso medicinal da cannabis é permitido em 33 estados daquele país). No Canadá, fumar um baseado não causa nenhum problema com a lei desde 2018.

A legalização mostra que o uso da maconha está além dos gêneros: uma pesquisa de 2017 da Cannabis Consumers Coalition aponta que, proporcionalmente, mais mulheres do que homens fumam baseado (53% das mulheres disseram fazer uso da maconha, contra 42% dos homens). E muitas delas alegam que o fazem para, por exemplo, dar um incremento à vida sexual ou mesmo como uma forma de aliviar os efeitos da menopausa.

Artistas da música estão atentos a esse mercado que se abriu. Tanto nomes consagrados, como Snoop Dogg e Willie Nelson, como novas vozes, a exemplo de Margo Price (cantora do selo Third Man Records) e de Jenny Lewis, investem diretamente ou indiretamente na venda de cannabis ou de produtos ligados a ela.

“Muitos artistas vendem roupas ou sapatos, alguns vendem vinho e cerveja, outros anunciam para empresas de fast-food. Eu estou vendendo uma planta cultivada por Deus”, brincou Price em uma entrevista ao jornal britânico The Guardian.

A maconha comercializada pela cantora é vendida na Califórnia. “Acho que hoje dá para ganhar mais dinheiro com a venda de maconha do que com a venda de discos. Ninguém mais compra álbuns, mas muita gente compra maconha.”

 

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